quarta-feira, 6 de abril de 2011


Não sabem quanto tempo estiveram juntos.
 Acordaram, dois corpos entrelaçados por muito mais que o fogo da paixão. Esta existiu, em cada pedacinho de pele antes adivinhada e agora descoberta, saboreada pela boca, memorizada pelo olhar de quem há longos meses desejava aquele momento.
Foram poucas as palavras.
 As mãos, ah as mãos, essas tocaram-se como quem faz promessas.... as mãos entrelaçadas, condutoras de ternura, para que o outro descobrisse cada pedacinho do ser.
E, riram e brincaram e esqueceram que para além das paredes do quarto outro mundo existia...
Foi escrita poesia durante aquelas horas... a poesia de quem ama sem barreiras... de quem se entrega na certeza de não ser prisioneiro, de quem deixa o outro ser para que se complete.... Carminho no seu êxtase de amante chorou emocionada por ser tanta a felicidade que sentia. Carlos serenou-a e embalou-a num longo e terno abraço...
Foi assim, cansados que adormeceram...
Sorriram quando acordaram. Acenderam a luz, Carminho tapou ligeiramente o rosto ao descobrir que estava nua... foi estranho ter sentido esta pontinha de pudor perante o seu amado... Carlos brincou com ela....
'' Vamos fazer chá? Comer bolachinhas, torradas...'' , '' vamos a isso, estou esfomeado, acho que não como há um século...''
Todo o prédio estava mergulhado em silêncio, assim como a rua. Era tarde, quando olharam o relógio nem queriam acreditar '' Duas da manhã?? Impossível.!!..'' disse Carlos...
Quando Carminho barrava as torradas, Carlos falou-lhe de mansinho : '' Achas que tudo já está dito?'' . '' Não sei... ou antes sei que pouco, muito pouco está dito....'' Respondeu Carminho.
'' Seria também impossível relatarmos as nossas vidas com precisão , por vezes o que nos fica na memória é comparável a um quadro impressionista, manchas de cor, de luz, sombras, cores escuras, horizontes que se adivinham.... Podemos é fazer um pacto. Só a verdade existirá. ''
'' Não sei se consigo, Carminho. Eu fujo da verdade. Não minto, mas fujo, usando a arma do silêncio...'' .
'' Também faço isso Carlos. Faço com muita frequência, não é bem calar-me é não falar do que verdadeiramente me preocupa. Uma amiga costuma dizer que eu em matéria de afectos '' assobio para o ar, e disfarço..''
'' Carminho, não vai ser fácil viver comigo...Sou ciumento, inseguro, nessas alturas torno-me mordaz...''
'' E, eu não sou uma santa, tenho mau feitio, altero o tom de voz a despropósito, faço a ladainha da coitadinha, da mais infeliz do universo, um horror... Só te posso prometer que lutarei... lutarei por nós.... pelo que representa ter alguém como tu para partilhar, para ser meu cumplice, lutar a teu lado pelos teus, ou antes nossos, ideiais.. isto é a única coisa que posso prometer....''.
Carlos levantou-se, dirigiu-se a Carminho, ajeitou-lhe as golas do robe, puxou-a para si e com muita suavidade beijou-a e num sussurro risonho disse-lhe :
'' Já é tão tarde... E se nos fossemos deitar.?..''



sexta-feira, 1 de abril de 2011

Primavera

Esvoaçam alegremente por aqui... as andorinhas!
Vinte meninas, não mais,
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.
Vinte meninas, não mais,
Eu via naquele muro:
Tinham cabecinha preta,
Vestidinho azul escuro.
As minhas vinte meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Chegaram na Primavera
E acenaram lá dos céus.
As minhas vinte meninas
Dormiam quentes num ninho
Feito de amor e de terra,
Feito de lama e carinho.
As minhas vinte meninas
Para o almoço e o jantar
Tinham coisas pequeninas,
Que apanhavam pelo ar.
Já passou a Primavera
Suas horas pequeninas:
E houve um milagre nos ninhos.
Pois foram mães, as meninas!
Eram ovos redondinhos
Que apetecia beijar:
Ovos que continham vidas
E asinhas para voar.
Já não são vinte meninas
Que a luz do Sol acalenta.
São muitas mais! muitas mais!
Não são vinte, são oitenta!
Depois oitenta meninas
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.
Mas as oitenta meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Em certo dia de Outono
Perderam-se pelos céus.

( Matilde Rosa Araújo)